Friday, June 13, 2008
Sunday, June 01, 2008
Primeira conjugação, raras pessoas, modo inevitável
Linguista nenhum me convence de que amar é um verbo regular.
Thursday, May 29, 2008
Secret post
Eu que não me comovo por dá cá aquela flor, comover-me-ia por todas as folhas e versos de um manjerico.
Saturday, May 03, 2008
Second (proof) reading
«And he seized her hand and raised it to his lips and kissed it with an intensity that brought the tears to her eyes, and quickly he dropped it.»
Virginia Woolf, To the Lighthouse
[To be continued]
Sunday, April 13, 2008
[título]
para a R.
Então vinha por ali a pensar, enquanto andava, os pés rápidos entre o pousar e o levantar do chão, das pedras da calçada como as que esvoaçaram, cruzando o céu revolto da Paris de há quarenta anos.
Isto depois de, à saída de casa – chamemos-lhe, chame-lhe eu, assim (isso é assunto para post inteiro) –, olhar, a abanar a cabeça daquela maneira, o guarda-chuva, face ao sol que trespassava o vidro da janela, para, descidas escadas, atravessadas passadeiras, ver a chuva jocosa desenhar pollocks transparentes nas lentes dos óculos (que cada vez preciso mais deles e mais cedo no dia). Isto antes de na paragem do autocarro (já consigo prever, com uma margem de dez minutos, a hora – o minuto? – a que passa), a oito minutos do próximo, me entreter a procurar a fronteira entre o céu azul luminoso sorridente e o céu, o mesmíssimo céu, cinzento, zangado, ameaçador, a ver o gajo do lado entreter a espera a passar o dedo numa ferida aberta, enquanto de vez em quando repetia alto a música nos seus ouvidos (que ainda chegava aos meus, e eu conseguiria identificar, não os tivesse tão maus). À espera, os que apanham o autocarro para apanhar, mais à frente, a carrinha da metadona vaticinam quanto ainda vai chover.
E depois, entrar no meio de transporte público, naquela mistura de cheiros de pessoas e sabe o motorista mais o quê, jornais do dia de ontem, ecos de unhas cortadas ao quilómetro não sei quantos, sinestesia que depressa me faz querer regressar à cama (como se precisasse destas desculpas, como se não bastasse acordar com despertador ao fim-de-semana, como se não bastasse acordar antes do despertador) para atender clientes (17 minutos, 0 clientes) e me sentir empregada de caixa de um hipermercado (que não trabalham depois das 13h de domingo). Eu que compro livros por tudo e por nada (que comprei um livro inteiro do Tolentino Mendonça por causa de dois versos) também vendo livros por tudo e por nada (e por isso não pude ir dizer isto e aquilo – as if... – ao Tolentino).
Parlez-vous français e hoje nem tive tempo de tomar café, quel est le prix, a tentar lembrar-me de como de decompõem os números em francês, sept euros, quatre-vingt-cinq, e na minha cabeça só um redondo soixante-huit.
Mas no meio da sofreguidão (não vá esquecer-me do que quero dizer), esqueci-me do que queria dizer. Que, apesar de me sentir eihriruhgeigyker de estar aqui, de invejar as pessoas com ar de fim-de-semana, apesar de ser muito capaz de me queixar dos fins-de-semana (de que não sou capaz de me queixar?, podia escrever queixosa nos espaços em branco para a profissão – e até gosto do que faço, sem que a modéstia me permita dar-lhe nome –, podia ouvir-me nomeada para best actress in the drama queen category - a comover-me por tanto ou tão pouco, venha daí esse abraço inesperado ou o olhar que que me arrepia até ao frio), apesar de todas as dores e calos de que me lembre, em silêncio ou pronúncia, o Vinicius tem razão e tenho por que(m) sorrir.
Isto depois de, à saída de casa – chamemos-lhe, chame-lhe eu, assim (isso é assunto para post inteiro) –, olhar, a abanar a cabeça daquela maneira, o guarda-chuva, face ao sol que trespassava o vidro da janela, para, descidas escadas, atravessadas passadeiras, ver a chuva jocosa desenhar pollocks transparentes nas lentes dos óculos (que cada vez preciso mais deles e mais cedo no dia). Isto antes de na paragem do autocarro (já consigo prever, com uma margem de dez minutos, a hora – o minuto? – a que passa), a oito minutos do próximo, me entreter a procurar a fronteira entre o céu azul luminoso sorridente e o céu, o mesmíssimo céu, cinzento, zangado, ameaçador, a ver o gajo do lado entreter a espera a passar o dedo numa ferida aberta, enquanto de vez em quando repetia alto a música nos seus ouvidos (que ainda chegava aos meus, e eu conseguiria identificar, não os tivesse tão maus). À espera, os que apanham o autocarro para apanhar, mais à frente, a carrinha da metadona vaticinam quanto ainda vai chover.
E depois, entrar no meio de transporte público, naquela mistura de cheiros de pessoas e sabe o motorista mais o quê, jornais do dia de ontem, ecos de unhas cortadas ao quilómetro não sei quantos, sinestesia que depressa me faz querer regressar à cama (como se precisasse destas desculpas, como se não bastasse acordar com despertador ao fim-de-semana, como se não bastasse acordar antes do despertador) para atender clientes (17 minutos, 0 clientes) e me sentir empregada de caixa de um hipermercado (que não trabalham depois das 13h de domingo). Eu que compro livros por tudo e por nada (que comprei um livro inteiro do Tolentino Mendonça por causa de dois versos) também vendo livros por tudo e por nada (e por isso não pude ir dizer isto e aquilo – as if... – ao Tolentino).
Parlez-vous français e hoje nem tive tempo de tomar café, quel est le prix, a tentar lembrar-me de como de decompõem os números em francês, sept euros, quatre-vingt-cinq, e na minha cabeça só um redondo soixante-huit.
Mas no meio da sofreguidão (não vá esquecer-me do que quero dizer), esqueci-me do que queria dizer. Que, apesar de me sentir eihriruhgeigyker de estar aqui, de invejar as pessoas com ar de fim-de-semana, apesar de ser muito capaz de me queixar dos fins-de-semana (de que não sou capaz de me queixar?, podia escrever queixosa nos espaços em branco para a profissão – e até gosto do que faço, sem que a modéstia me permita dar-lhe nome –, podia ouvir-me nomeada para best actress in the drama queen category - a comover-me por tanto ou tão pouco, venha daí esse abraço inesperado ou o olhar que que me arrepia até ao frio), apesar de todas as dores e calos de que me lembre, em silêncio ou pronúncia, o Vinicius tem razão e tenho por que(m) sorrir.
Saturday, March 15, 2008
20-9-1994
A verdade é que não gosto muito de elogios fúnebres (na verdade, não gosto muito de elogios, mas pode ser por não saber reagir-lhes com graça), a verdade também é que aniversários de morte são momentos de memória como quaisquer dias que não são aniversário de nada. A verdade é que podia começar muitas frases por «a verdade é que» porque a verdade é muitas coisas.
Como se os calendários escolhessem quando nos lembramos das pessoas, dias antes de fazer anos que o meu avô, o materno, morreu, pensei escrever sobre ele — para o lembrar, para não esquecer o pouco que guardo dele, memórias difusas e infanto-juvenis das visitas aos domingos, do ananás que apreciava à sobremesa, das saídas a desoras para a caça, da nota que dava aos netos para carrosséis e algodão-doce quando íamos à feira e nos entretínhamos com bolinhas saltitonas e reco-recos.
Pensei-o perto do dia em que ele faria anos, penso também noutros dias por razões concretas e sem aviso.
Achava-o bonito, mas talvez seja orgulho de neta, porque me lembro dele numa idade em que a beleza já não distingue os homens (não acredito no que acabei de escrever).
Era o homem da casa, fazia a barba como quem preside a uma cerimónia, mas sentava-se em qualquer lugar da mesa. Andava de boné à banda, por causa do sol e do frio, com cajado e uma cadela Macaca, feia e arreganhada como me assustava, para dar o norte às ovelhas.
Aos domingos levava-lhe sobremesa, e um domingo comecei a levar-lhe flores ímpares aonde não há ciprestes nem árvores altas ou soturnas. Há figueiras e uns arbustos floridos de branco e cor-de-rosa, como antes à porta de casa (nunca lhes soube o nome e no Jardim Botânico não têm bilhete de identidade).
Deitámo-lo sob a terra como sobre a qual dormia sestas, ao lado do Arlindo e perto de onde repousa a Maria da República, nascida em 1910, porque viver todos os dias cansa. Nunca vi quem os visitasse, mas, afinal, são os mortos que nos visitam.
Como se os calendários escolhessem quando nos lembramos das pessoas, dias antes de fazer anos que o meu avô, o materno, morreu, pensei escrever sobre ele — para o lembrar, para não esquecer o pouco que guardo dele, memórias difusas e infanto-juvenis das visitas aos domingos, do ananás que apreciava à sobremesa, das saídas a desoras para a caça, da nota que dava aos netos para carrosséis e algodão-doce quando íamos à feira e nos entretínhamos com bolinhas saltitonas e reco-recos.
Pensei-o perto do dia em que ele faria anos, penso também noutros dias por razões concretas e sem aviso.
Achava-o bonito, mas talvez seja orgulho de neta, porque me lembro dele numa idade em que a beleza já não distingue os homens (não acredito no que acabei de escrever).
Era o homem da casa, fazia a barba como quem preside a uma cerimónia, mas sentava-se em qualquer lugar da mesa. Andava de boné à banda, por causa do sol e do frio, com cajado e uma cadela Macaca, feia e arreganhada como me assustava, para dar o norte às ovelhas.
Aos domingos levava-lhe sobremesa, e um domingo comecei a levar-lhe flores ímpares aonde não há ciprestes nem árvores altas ou soturnas. Há figueiras e uns arbustos floridos de branco e cor-de-rosa, como antes à porta de casa (nunca lhes soube o nome e no Jardim Botânico não têm bilhete de identidade).
Deitámo-lo sob a terra como sobre a qual dormia sestas, ao lado do Arlindo e perto de onde repousa a Maria da República, nascida em 1910, porque viver todos os dias cansa. Nunca vi quem os visitasse, mas, afinal, são os mortos que nos visitam.
Agora sem citações
Gostava de chegar ao fim e isto fazer sentido. Gostava de dizer, e que fosse verdade, que me entretenho com uma natureza morta e a decomponho e volto a arrumar a fruta e, ainda de cesto cheio, colorido, lhe espremo um sumo nutritivo, de laranjas e adjectivos mais ácidos, cascas duras e corações moles. Penso muito, pela calada, numa passividade de observadora, e penso muito em escrever, quando leio, quando acordo, quando nunca mais adormeço. Penso por nada e sem relevância, fico às aranhas, como uma barata tonta, num ritmo de lesma e hesitação (espantada por de lenta a lesta só ir uma fricativa e lerda ficar ainda a uma oclusiva oral de distância) e, a avaliar pela gradação das expressões que me ocorrem, estou certa de que escrever é um trabalho sujo, mas já em pequena eu gostava de pisar as poças.
Eu que me comovo por tudo e por nada #37
Ainda era feio escrever com caneta vermelha e eu já extasiava quando a professora, depois do ditado, instruía: «Agora troquem os cadernos e corrijam.»
Sunday, February 24, 2008
Gaivota em terra
Estava ao Saldanha, numa esquina espanejada pelo vento (varrida seria fácil e o vento não soprava tão forte que arrastasse até ao Marquês as palavras sussurradas ao Duque).
À distância, vi que, franzina de fome, vestia em camadas a roupa que já não cabia na mochila, volumosa de bens poucos e todos importantes.
Quando passei, pediu-me um cigarro ou uma moeda, não me lembro porque não dei.
Deixou a mão esquerda caída à espera do próximo transeunte e na mão direita agitava, antes de beber com moderação, uma garrafa de álcool. Etílico.
À distância, vi que, franzina de fome, vestia em camadas a roupa que já não cabia na mochila, volumosa de bens poucos e todos importantes.
Quando passei, pediu-me um cigarro ou uma moeda, não me lembro porque não dei.
Deixou a mão esquerda caída à espera do próximo transeunte e na mão direita agitava, antes de beber com moderação, uma garrafa de álcool. Etílico.

